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Cena da sensível peça Rosário - Deveria ser uma redundância mas sabemos que nem sempre é assim / Foto: Divulgação

Ar, terra, fogo e água.

Moldando os quatro elementos da natureza à sua beleza a atriz e intérprete musical (porquê não?!) Felícia de Castro”mostura” em uma cabaça – lê-se cabeça – o que há de mulher-realidade e mulher-pensamento nesse mundão chamado sertão.

Junte isso a uma boa mão de sal, açúcar e símbolos sagrados e pronto. Estava a minha frente o Terço rogado pela atriz. Em seu espetáculoso espetáculo chamado Rosário, sem o perdão da redundância ou da rima, é inevitável sentir o cheiro do barro “relado” naquele vento seco, com cheiro de bicho e de gente.

Primeiro. É interessante. Me causou certa revelia de início, talvez curiosidade de ver onde ia dar aquilo que me parecia familiar e rico. Fiquei cabreira.

Segundo. É instigante. Diferentes sentidos foram apurados, inclusive o sexto, que pôde observar a presença de divindades rodopiando pelo pequeno teatro de arena. Serenas e dançadeiras.

Terceiro. É bonito. Tudo bem apresentado. Rendas e bordados bem bordados, bacia tinindo e estrelas no cabelo quando agraciado pela água.

Mesmo sendo um monólogo não monótono, havia muita gente em cena. Enxerga-se em cena uma senhora enrugada de tempo dançando no chão de barro batido. Enxerga-se na arena a mulher vigorosa que tira de si a energia do peito e troca com a energia do homem a sua frente. Enxerga-se em palco a criança que entoa a cantiga e bate palma no compasso, na cadência, mesmo sem saber o que isso de fato significa.

A trilha é invejável. Eu quase me vi sambando ali, no meio da areia espalhada delicadamente pelo chão – isso me desconcentrou por minutos. Imaginei a delícia que não foi a concepção daquele trabalho: ver toda aquela música, derramada por gerações, solta no vento. Ir apanhando, com cuidado, cada nota, palavra, simbologia e alinhavar aquilo em uma hora e pouca de apresentação.

Na plateia, mulher de um lado, mulher do outro, mulher em cima, mulher embaixo. Homens contados no dedo – o que, ao meu ver, está trocado: mas vale um homem conhecendo o que de mulher as mulheres têm do que 30 mil mulheres se enxergando, parece-me menos útil, mas ainda assim é lindo e lisonjeiro.

É samba puro. É mulher pura.

Negra?

É mulher pura.

Amarela, azul, branca.
Dentro, somos todas vermelhas, e foi assim que eu também me vi ali. Vermelha em cena.
Que nem a rosa – que me custou outros minutos e me ganhou ao dar o ar da graça.

Bonito. Estudado. Rico. Popular. Delicado.

Uma verdadeira renda tecida a mão.

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