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Ela juuura que é a Cor da minha cidade! / Foto: Divulgação- O Fuxico

Atenção Fãs de Daniela Mercury: Leiam com ponderação

Acho que todo soteropolitano tem um CD de Daniela Mercury. Quando tinha 7 ou 8 anos ganhei o meu, lembro como se fosse ontem …

Brincava de fazer lama em uma chuva gostosa, daquelas que só existe pra menino pequeno, sabe? Estava no quintal da casa da minha avó quando recebi do meu pai um dos meus presentes favoritos: um CD (sim, eu sou da geração do CD).

Fui correndo colocar Feijão com Arroz no som e folhear o encarte – o que é um prazer e tanto pra mim.

Não posso negar que aquele treco ficou dentro do meu aparelho por um bom tempo – Feijão de Corda era especialmente empolgante para mim, até hoje fico sem saber por que (vide refrão), mas creio que tenha sido por conta do batuque ou da vaga semelhança com algumas cantigas de roda.

Alguns anos depois (mais do que a quantidade de anos que a cantora soteropolitana ficou sem gravar álbuns em estúdio) fui tomando um desgosto por todo o conjunto da obra: que o canto da cidade era dela e a cor da cidade ERA ela, menos mal – tem todo um sentido metafórico, figurativo, viajantivo – AGORA, o silêncio da noite e até a porra do sol da manhã TAMBÉM?!

Quer dizer, não bastava ela expressar liricamente que ela era a representatividade física e vocal da energia do baiano?

Oxente, rapaz, ela né fraca não, viu?

Pegou logo foi tudo da minha cidade e patenteou (igual aos japoneses com o açaí brasileiro – tirando o fato dela não ficar com a boca preta depois que come o canto da cidade).

Depois que eu me toquei desses detalhes… Gente, toda vez que ouvia a palavra Daniela, ou Rainha do Axé, ou Mercury, ou Dani ou D… já ia me dando umas agonias.

Vixi, mas que aquela mulher me deixava nervosa, deixava (mais tarde eu fui descobrir que eu só não gostava dela por dois motivos: por que minha implicância não tem dono e porque ela resolveu se chegar foi em Daniela Mercury).

De lá pra cá ficava pensando como ela conseguia ter em mãos a “ Fórmula Mágica da Efusividade” – até na festa, já pouco efusiva, do Carnaval.

Me acompanhe…

Fórmula de Báskara do Exagero

a = Qual o instrumento que tem ATÉ calda?

b = Atrás do QUE só não vai quem já MORREU?

c = Qual época do ano Salvador fica MAIS colorida – lê-se suja?

O resultado veio estampado na manchete de trinta mil jornais por aí:

a + b + c =

“Daniela traz piano de calda para cima do Trio Elétrico no
Carnaval de Salvador”

– Porra véi, aí é dose! – Pensei com a mesma intensidade que as palavras fugiram da boca naquele momento de espanto.

Espanto esse que permaneceu estampado em minha cara por muito tempo toda vez que o assunto era Daniela – a essa altura eu não queria nem saber se tinha instrumento tal na música dela, se fulaninho musicista mundial era convidado ou se ela tava namorando com uma mulher de Nova York e o cabelo dela tinha sido queimado em um salão de beleza…

Até hoje.

Para quem não sabe, hoje é o domingo que tá rolando uma festa no play do meu prédio que não me deixa dormir e o dia de um programa especialmente dedicado a Daniela, em comemoração aos seus 20 mil anos de carreira (tirando os 80 mil de carreira internacional).

Parei pra assistir – eu nem gosto de me provocar, imagina.

Palavra vai, palavra vem, ela me pareceu diferente.

– Rapaz, essa mulher não dorme há 12 dias e tá morgada ou ela tá calma mesmo?- Ponderei.

Serenidade – Acho que a palavra que melhor expressou o que eu enxerguei foi essa.

Ela estava tão diferente aos meus olhos, parecia que estava falando comigo da mesma altura – tirou o salto da altura do Elevador Lacerda que para mim ela parecia usar. Ali, eu quis ouvir o que ela tinha pra falar, pra mostrar e pra cantar.

Reparei na emoção dela, nos músicos dela (pelos quais eu nutria uma pena terrível até segundos atrás), nas palavras dela e até nas cinco capas diferentes que ela tinha feito para um único CD (ta, tá, também achei que já deu de chatice minha, mas como disse: a implicância não tem dono, porra, e agora ela era das cinco capas do CD – menos mal).

Tudo me parecia estranhamente familiar, e foi aí que ela começou a cantar uma música que tinha composto em homenagem aos pais, irmãos e sobrinhos.

Isso pode até não significar muita coisa, mas devo admitir:

Daniela teve, a partir do primeiro toque naquelas congas (que me bateram como um atabaque), a minha admiração mais sincera.

Ao cantar Cinco Meninos, Daniela Mercury parecia uma verdadeira estrela que “traz o sol”: sensível, mulher, afetiva, calorosa e poderosa, por levar à rua, como quem vendia quitutes de porta em porta, um amor puro e destilado.

Foi muito emocionada que corri para pegar esta folha de papel e uma caneta (sim, sou da geração do CD e do google, mas tenho minhas preferências) e escrevi a primeira palavra que pulsou em meu coração:

Serenidade.

Além da compulsiva – e habitual – vontade de escrever, me bateu uma vontade de tascar um abraço naquela mulher, como prova do meu mais legítimo agradecimento.

Agradecimento por me fazer lembrar da vida na casa da minha avó, na Boca do Rio, das festas de natal, da minha primeira paixão, dos meus tios nadando crawl em uma piscina plástica de 1000 lt, dos meus momentos de solitude e reflexão, dos instantes em que meu estômago parece ter dado um nó e a garganta fica seca, de quando eu me escondia e de quando eu queria me aproximar…

Basicamente, por me fazer lembrar das minhas mais profundas emoções.

Palmas dedicadas a ela, a sua família, a sua história e a sua belíssima e humilde interpretação de como poderia ser a autêntica e visceral energia do baiano – se ela conseguisse ficar presa a uma pessoa, a um canto, a uma cor…

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Anjo Negro

Novos atores e a grandeza de uma obra eterna / Foto: Divulgação- Eduardo Lubisco

Inspirada na montagem homônima de Nelson Rodrigues, Anjo Negro traz no elenco novos atores, novas interpretações e a “pegada baiana” misturada a um dos clássicos do palco.

A peça apresenta o negro como um ser autêntico, com personalidade bastante delineada e pouco folclórica, como de costume na época em que foi originalmente escrita, em 1946.  Para o autor, transmutar a apresentação do negro nos grandes palcos era algo significativo, assim como expressar alguns paradigmas sociais.

Com uma narrativa específica, ambientada em um período onde o negro ganhava espaço aos olhos de uma sociedade preconceituosa, a montagem conta a história de Ismael, um personagem decidido, mas que por vezes se desequilibra na corda bamba entre o emocional explosivo e a brutal frieza do pragmatismo.

Audacioso, o negro que trilhou uma ascensão social confronta-se com sua esposa, Virgínia, uma mulher branca que, meio aos seus sentimentos esmagados, vive um relacionamento tenso e intenso com Ismael.

Em meio aos desmanches dos nós, a avalanche de emoções e os mais diferentes comportamentos humanos, a nova montagem, que contou com a direção de Ramón Reverendo, apresenta o brilhantismo de um extenso elenco que se dividiu em três apresentações durante o mês de outubro, no Teatro SESC da Casa do Comércio.

De maneira exemplar, o resgate da cultura e filosofia de Nelson Rodrigues se fez presente em cada atuação, onde atores e atrizes conotavam toda a pesquisa feita em torno do objeto: a obra Anjo Negro.

Com tons sarcásticos, depressivos e hora depreciativos, a peça ganha oscilações graças a cada personalidade retratada em palco, como uma senhora puritana, mas julgadora, irmãs enrustidamente sexuais e empregados negros, de um senhor também negro.

Com um cenário minimalista, a peça explora a densidade dos personagens, como uma grande obra do dramaturgo Nelson Rodrigues, com um detalhe que merece destaque: a peça era a conclusão de cursos de estudantes de teatro.

Então fica aqui o parabéns pela coragem de encarar, tão destemidamente, esta grande e belíssima obra!

Por Priscila Letieres

O fradinho e a fome da Deusa

Deusa das belas

Iansã, fortaleza dourada

Como os raios, distribuindo luminosidade

Forte senhora dos ventos

A fome era tamanha

O fradinho estava perdido

Simples demais para ofertar

Merecia brilho

Deram-no um banho de luz:   Azeite de dendê

Fradinho igual à Deusa, dourado na cor e no sabor

Agraciado como magia

Do terreiro, o sagrado bolinho de fogo surgia

O crocante da alma em forma de alimento

Deixara de ser o singelo fradinho

Se transformou no poderoso acarajé

Ofertado à Orixá Iansã

As mães de santo alimentaram seus filhos

Saciando a fome da alma e do corpo

Como força dos ventos de Iansã

O acarajé se espalhou, ganhou fama

É o Mc Donald`s da Bahia

Assim como o fast food

Percorre o mundo globalizado

Extravasou os limites do tabuleiro

É comercializado nas vitrines dos supermercados

Extravasou os limites do terreiro

Está alimentando todo o povo profano

Extravasou os limites da diferenças e do preconceito

Do preconceito?……

Mas ousaram nomenclaturar

O acarajé da Deusa Orixá Iansã

Como “Acarajé de Jesus”

Mercantilismo dos brabos!

Não bastou sincretizar como Santa  Barbara

Estão evangelizando nosso sanduíche baiano

Puro engano…..

Será sempre a gloriosa oferenda

Do fogo e do vento, da Orixá Iansã!

Por Tânia Freitas

Oh!!! Bahia. Rica em diversidades. Terra das descobertas e revelações / Foto: Divulgação

Na Bahia, o culto afro-baiano do candomblé é parte integrante da cultura. Por meio dos terreiros e dos rituais, regular ou ocasionalmente frequentados pelos filhos da religião, o candomblé também é integrante da cultura brasileira e de outros povos, fazendo parte da vida não só de alguns afro-brasileiros mas como de outros adeptos da religião.

No Brasil, há quatro representações de nações do candomblé: Kêtu (povo nagô), Gêge (povo nagô, mas decendentes de uma outra cultura), Angola-congo (povo bantu, este culto é mais abrasileirado) e de Caboclo (cultua mais os caboclos, mistura-se com a umbanda). O Candomblé, segmento religioso politeísta, baseia-se no culto aos Orixás, deuses oriundos das quatro forças da natureza: Terra, Fogo, Água e Ar.

Como toda religião, há nos terreiros uma hierarquia e nela estão inseridos os “chefes”, devidamente conhecidos como Babalorixá (quando homem) e Ialorixá (quando mulher), que orientam e preparam todos os seus “filhos”.

Em conversa com o filho de Obaluaiê José Neri Santana, conhecido como pai Neri, de 58 anos, Neri dá o seu depoimento: “Sigo jornadas de rituais aos orixás e ao santo da casa Obaluaiê, e essa prática eu excerço há mais de 30 anos, desde quando vim de Santo Amaro, que foi onde nasci”.

O terreiro Cafung Uzang trabalha sem fins lucrativos e além de alimentar a religião na cidade, preocupa-se em apoiar a comunidade camaçariense e seus adjacentes. As pessoas interessadas podem participar, desde que de comum acordo com as expressões do culto.

Além disso, no candomblé, existe uma data comemorativa para cada orixá. Segue abaixo calendário festivo dos orixás do terreiro Cafung Uzang:

Oxalá – 01 de janeiro.

Caboclo – 06 de janeiro e 02 de julho

Ogum – 13 de junho.

Omolu (São Lazaro) – 16 de agosto

Cosme e Damião (Erês) – 24 de setembro

Egum – Mês de novembro

Os orixás e seus rituais:

Oxalá – O mestre (rei do candomblé), sua veste é branca, comida branca fria (arroz, mungunzá, etc.) e sem sal e o seu dia é a sexta-feira.

Ogum – Orixá da guerra (guerreiro) e exu ao mesmo tempo, sua veste é azul, sua comida é bode, galos (animais) etc., iame e feijoada e o seu dia é a terça-feira.

Oxossi – Rei das matas (caçador), a cor de suas vestes é verde, sua comida é coco e milho vermelho e o seu dia é a quinta-feira; Dia de comemoração 23 de abril.

Xangó – Orixá da justiça, sua veste é vermelho e branco, sua comida é o quiabo, camarão e dendê oferecido na gamela e o seu dia é a quinta-feira;

Obaluaiê – É o protetor de todas as doenças (orixá da peste), sua veste é preta e branca e palha nas costas, a sua comida é o orubajé (todas as comidas dos orixás) é oferecida na folha da bananeira ou mamona e o seu dia é a segunda-feira;

Iemanjá – A rainha das águas salgadas, sua veste é azul céu, sua comida é arroz e feijão fradinho, suas oferendas são: presentes como flores, espelhos e seiva de alfazema e o seu dia é 02 de fevereiro;

Oxum – É a deusa das águas doces, suas vestes é o amarelo, dourado, azul claro e rosa, sua comida molocum é feita de feijão fradinho, ovo, camarão e azeite. E suas oferendas são: flores, frutas e perfumes e o seu dia é 20 de maio fundação da casa de Oxum;

Nanã – Mãe de Obaluaiê (saluva vovó), protetora das professoras e da sabedoria de seus filhos, suas vestes na cor branca, lilás e estampadas, sua comida é todas de Ogum e Iemanjá e o seu dia 19 de março;

Iansã – É a deusa guerreira e senhora dos ventos, sua veste na cor vermelha com coroa e espadas com pedras preciosas, sua comida é o acarajé, caruru, bode e todos os pratos oferecidos pelos orixás. Seu dia é 08 de dezembro;

Exu – Mensageiro dos orixás predominantes para proteção do terreiro e nenhum terreiro será aberto sem a licença dele, pois ele é o primeiro orixá do candomblé, sua veste é preta e vermelha, sua comida é padé (farofa), bebidas (cachaça), marafo (charuto), e o seu dia é a segunda-feira;

Oxum Apará (dois orixás juntos é o oxum e Iansã), sua veste é azul, branco e amarelo ouro. Suas festas acontecem em Fevereiro e dezembro;

Oba – Têm os mesmo rituais de Iansã, o seu dia é a quarta-feira.

Saudações dos Orixás:

Oxalá – xeeba  – baba- pedi paz e transmiti paz ao universo.

Ogum – ogumel patacuri jaci metameta

Oxossi – oquio  de aquarô

Xango – o que kaô cabeicilo

Obaluaiê – atolo jubuô

Localizado em Camaçari (interior de Salvador), o Terreiro Cafung Uzang dirigido pelo filho de Obaluaiê José Neri Sanatana “Pai Neri”.

Por Daniela Oliveira

Edição: Priscila Letieres

Umbigo: um relato sobre tolerância / Foto: Erik Moreno

O espetáculo “Umbigo” de Dejalmir Melo foi exibido no FIAC, e, é uma coreografia que apresenta as características do homem contemporâneo: egoísta, usurpador  e  estudioso do seu próprio comportamento.

No contexto tudo está apresentado em uma desordem total. Os personagens, imersos em um mundo onde alguns já desistiram de tentar, passam a compreender, cada uma da sua forma, que talvez os defeitos e diferenças individuais não sejam totalmente diversos. O espetáculo desperta um auto conhecimento, aceitação e compreensão consigo mesmo e com o outro.

A  tolerância é uma das virtudes  que o espetáculo trata, sendo  seu oposto: a falta do seu conhecimento e prática que tem por conseqüência a reação desmedida, relações de extrema intensidade onde a medida de força e poder tornam-se referência. O aspecto da tolerância é medido de forma passiva, tornando-se pouco significante diante da sociedade.

O cotidiano, que nos apresenta situações que nos remete à superação e resistência diante de uma imensa quantidade de provas a que somos submetidos diariamente.

Acredito que a trilha sonora deve ter realmente uma relação real com o que está sendo representado na cena, fazendo uma intersecção entre todos os elementos cênicos e formando uma só mensagem naquele ambiente – ou simplesmente pode ser que não exista nenhuma relação e que a trilha seja somente um fundo musical que acompanha a representação.

As músicas escolhidas nos remete a um estado de concentração e de plena serenidade. Ao mesmo tempo, na coreografia permite um diálogo interessante entre cenas fortes, casando também perfeitamente com outras cenas sensíveis e mais calmas.

“Umbigo” relata sobre a  tolerância. Diante dessa esfera social contemporânea onde cada vez mais refletimos apenas no nosso próprio umbigo.

Por Tânia Freitas

O que seria a baianidade nagô? / Foto: Alex de Oliveira

“Já pintou verão/ Calor no coração/ A festa vai começar/ Salvador se agita/ Numa só alegria/ Eternos Dodô e Osmar/ Na avenida sete/ Da paz eu sou tiete/ Na barra o farol a brilhar/ Carnaval na Bahia/ Oitava maravilha/ Nunca irei te deixar meu amor…”
(Música composta por Evany e gravada por Daniela Mercury no seu primeiro Cd, Daniela Mercury).

Tudo começa no estado de origem do Brasil, a Bahia. O estado, que já foi capital do Brasil e hoje se encontra como terceiro maior estado do país, possui uma área de 564.692,669 km² e uma população total de 14.080.654 habitantes.

Resolvi começar a falar sobre “baianidade nagô”. Sempre ouvimos falar essa expressão, mas, o que seria mesmo a tal?

Falar sobre essa peculiaridade seria referir-se ao dia a dia do soteropolitano, do baiano? Seria falar que o povo da Bahia é um povo guerreiro? Seria falar de sua origem africana? Seria. Mas, quando comecei a pensar sobre o assunto, resolvi colocar o foco no dia a dia do soteropolitano.

Mas, porque?

Para tentar destituir aquele discurso etnocêntrico de que baiano é preguiçoso, que não faz nada e fica deitado na rede falando devagar. Poxa, quem fica na rede é peixe e olha lá – se não for um daqueles peixes arretados que conseguem cair fora.

Fico as vezes pensando se essa fama do meu povo vem do nosso carnaval. Por ser o maior carnaval do mundo muita coisa acontece, muitas pessoas visitam a cidade e muitos boatos aparecem. A nossa alegria, que é desde quando nascemos nossa estrela que brilha sempre, surpreende sempre o nosso visitante e é o nosso cartão de visita para os amigos de fora. A dança, a música com nossos grupos e músicos tão apreciados por todo o mundo, as comidas, verdadeira iguarias, o jeito baiano, soteropolitano de ser, deve ser a tão questionada “baianidade nagô”.

Por falar no meu povo, gostaria muito de saber quem foi o sujeito que espalhou que o baiano é preguiçoso.

Se eu pego esse sujeito, junto mais uns milhões de outros sujeitos e damos um jeito.

Tudo bem, é um povo festeiro, feliz, mas preguiçoso nunca. Povo que acorda cedo para trabalhar, que “pega duro no batente”, como eles mesmos dizem, e que não desiste nunca dos desafios propostos. Muitos acordam lá pelas 4h da manhã para trabalhar retornando apenas no final do dia. Outros têm uma vida corrida de estudar e trabalhar. Outros ainda, e destaco em especial as mulheres, têm uma tripla ou quadrupla jornada, com casa para arrumar, filho para cuidar, trabalho e estudo – essas são realmente guerreiras.

Eu, particularmente, conheço uma dessas. Mulher, separada, com três filhos, casa para cuidar e mais um trabalho próprio. O que você acha? Pensa que é fácil uma vida dessas? E depois vem um “sujeitinho” dizer que a vida para nós é fácil.

Outra característica que me chama a atenção é o sotaque. Alguém já parou para pensar nos sotaques do Brasil? Com certeza não. Mas com uma certeza maior ainda já parou para imitar ou para dar risada do sotaque do soteropolitano, ou melhor, do baiano. Muito bem, vamos lá. Quem já parou para dizer que o sotaque do carioca é insuportável? Que aquele “erre” puxado é um saco, ou já disse que o sotaque dos paulistanos ‘dá nos nervos’, ou ainda que o pernambucano canta e não fala? Por que o pobre do soteropolitano, baiano, morador da terceira mais representativa capital desse país sofre tanto?

É notório como os nossos baianos saem de seu berço, na busca de oportunidades no sul e sudeste do país, e são discriminada e descaradamente subjulgados a empregos pesados, difíceis de encarar. Como são preguiçosos se ocupam os esses trabalhos? Por outro lado, é preciso admitir que a oportunidade de estudo no estado é bastante difícil para aquelas pessoas que tem uma renda pequena e que a qualificação de grande parte deste segmento da população é pouca.

Mas alguns pré conceitos precisam ser repensados.

Como abri esse texto com uma música interpretada pela cantora baiana conhecida internacionalmente Daniela Mercury, gostaria muito de saber da mesma o que ela me explica como a tal baianidade. Acho que a maioria dos artistas dirão a mesma resposta: “É a alegria do povo baiano, o jeito de viver que deixa os outros impressionados”.

Mas, depois dos exemplos que citamos aqui, será mesmo que é assim? A única certeza que fica aqui é que essa tal não tem nada haver com a preguiça que muitos falam e que, muito pelo contrário, esses mais de 14 milhões de habitantes são lutadores, que não deixam a peteca cair e que mesmo com todas as dificuldades e humilhações que passam conseguem ser alegres e mostrar ao mundo “o que é que a baiana tem”. Assim como mostrou o povo da matriz negra Nagô.

Ou seja, assim como todos os baianos. Dotados com a tal Baianidade Nagô.

Por Luana Topázio

Edição Priscila Letieres

Da África, para a Bahia / Foto: Tempero da vida

Trazido para o Brasil no século XIX pelos hauçás – muçulmanos habitantes do norte da Nigéria – o arroz-de-hauçá é um prato de origem africana que foi introduzido no cardápio das iguarias  baianas. Expressando a influência notória da culinária africana na culinária dos brasileiros,  o arroz-de-hauçá  representa, com muito sabor, essa proximidade gastronômica na Bahia.

O arroz-de-hauçá é uma opção de degustação de vários baianos, inclusive do ilustre escritor Jorge Amado, demonstrando, mais uma vez, que a cozinha negra fez valer os seus temperos, condimentos e a sua maneira de cozinhar.

O prato consiste em um anel de arroz banhado no leite de côco, acrescido a carne seca acebolada e  coberto com molho de camarão seco defumado – tudo regado com um pouco de azeite de oliva e dendê. Todos esses ingredientes são colocados bem arrumados em um recipiente redondo e normalmente servidos em tigelas de barro quando ainda está quente.

Para entender: A carne seca que compõe o arroz-de-hauçá era, naquela época, um alimento direcionado aos mais pobres, por isso era amplamente utilizada na culinária de trabalhadores, como os peões de fazenda de cacau. Além disso, compõe a “dieta” do Orixá Omolu.

Por Daniela Oliveira