Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Na raíz da questão’ Category

O que seria a baianidade nagô? / Foto: Alex de Oliveira

“Já pintou verão/ Calor no coração/ A festa vai começar/ Salvador se agita/ Numa só alegria/ Eternos Dodô e Osmar/ Na avenida sete/ Da paz eu sou tiete/ Na barra o farol a brilhar/ Carnaval na Bahia/ Oitava maravilha/ Nunca irei te deixar meu amor…”
(Música composta por Evany e gravada por Daniela Mercury no seu primeiro Cd, Daniela Mercury).

Tudo começa no estado de origem do Brasil, a Bahia. O estado, que já foi capital do Brasil e hoje se encontra como terceiro maior estado do país, possui uma área de 564.692,669 km² e uma população total de 14.080.654 habitantes.

Resolvi começar a falar sobre “baianidade nagô”. Sempre ouvimos falar essa expressão, mas, o que seria mesmo a tal?

Falar sobre essa peculiaridade seria referir-se ao dia a dia do soteropolitano, do baiano? Seria falar que o povo da Bahia é um povo guerreiro? Seria falar de sua origem africana? Seria. Mas, quando comecei a pensar sobre o assunto, resolvi colocar o foco no dia a dia do soteropolitano.

Mas, porque?

Para tentar destituir aquele discurso etnocêntrico de que baiano é preguiçoso, que não faz nada e fica deitado na rede falando devagar. Poxa, quem fica na rede é peixe e olha lá – se não for um daqueles peixes arretados que conseguem cair fora.

Fico as vezes pensando se essa fama do meu povo vem do nosso carnaval. Por ser o maior carnaval do mundo muita coisa acontece, muitas pessoas visitam a cidade e muitos boatos aparecem. A nossa alegria, que é desde quando nascemos nossa estrela que brilha sempre, surpreende sempre o nosso visitante e é o nosso cartão de visita para os amigos de fora. A dança, a música com nossos grupos e músicos tão apreciados por todo o mundo, as comidas, verdadeira iguarias, o jeito baiano, soteropolitano de ser, deve ser a tão questionada “baianidade nagô”.

Por falar no meu povo, gostaria muito de saber quem foi o sujeito que espalhou que o baiano é preguiçoso.

Se eu pego esse sujeito, junto mais uns milhões de outros sujeitos e damos um jeito.

Tudo bem, é um povo festeiro, feliz, mas preguiçoso nunca. Povo que acorda cedo para trabalhar, que “pega duro no batente”, como eles mesmos dizem, e que não desiste nunca dos desafios propostos. Muitos acordam lá pelas 4h da manhã para trabalhar retornando apenas no final do dia. Outros têm uma vida corrida de estudar e trabalhar. Outros ainda, e destaco em especial as mulheres, têm uma tripla ou quadrupla jornada, com casa para arrumar, filho para cuidar, trabalho e estudo – essas são realmente guerreiras.

Eu, particularmente, conheço uma dessas. Mulher, separada, com três filhos, casa para cuidar e mais um trabalho próprio. O que você acha? Pensa que é fácil uma vida dessas? E depois vem um “sujeitinho” dizer que a vida para nós é fácil.

Outra característica que me chama a atenção é o sotaque. Alguém já parou para pensar nos sotaques do Brasil? Com certeza não. Mas com uma certeza maior ainda já parou para imitar ou para dar risada do sotaque do soteropolitano, ou melhor, do baiano. Muito bem, vamos lá. Quem já parou para dizer que o sotaque do carioca é insuportável? Que aquele “erre” puxado é um saco, ou já disse que o sotaque dos paulistanos ‘dá nos nervos’, ou ainda que o pernambucano canta e não fala? Por que o pobre do soteropolitano, baiano, morador da terceira mais representativa capital desse país sofre tanto?

É notório como os nossos baianos saem de seu berço, na busca de oportunidades no sul e sudeste do país, e são discriminada e descaradamente subjulgados a empregos pesados, difíceis de encarar. Como são preguiçosos se ocupam os esses trabalhos? Por outro lado, é preciso admitir que a oportunidade de estudo no estado é bastante difícil para aquelas pessoas que tem uma renda pequena e que a qualificação de grande parte deste segmento da população é pouca.

Mas alguns pré conceitos precisam ser repensados.

Como abri esse texto com uma música interpretada pela cantora baiana conhecida internacionalmente Daniela Mercury, gostaria muito de saber da mesma o que ela me explica como a tal baianidade. Acho que a maioria dos artistas dirão a mesma resposta: “É a alegria do povo baiano, o jeito de viver que deixa os outros impressionados”.

Mas, depois dos exemplos que citamos aqui, será mesmo que é assim? A única certeza que fica aqui é que essa tal não tem nada haver com a preguiça que muitos falam e que, muito pelo contrário, esses mais de 14 milhões de habitantes são lutadores, que não deixam a peteca cair e que mesmo com todas as dificuldades e humilhações que passam conseguem ser alegres e mostrar ao mundo “o que é que a baiana tem”. Assim como mostrou o povo da matriz negra Nagô.

Ou seja, assim como todos os baianos. Dotados com a tal Baianidade Nagô.

Por Luana Topázio

Edição Priscila Letieres

Read Full Post »

Da África, para a Bahia / Foto: Tempero da vida

Trazido para o Brasil no século XIX pelos hauçás – muçulmanos habitantes do norte da Nigéria – o arroz-de-hauçá é um prato de origem africana que foi introduzido no cardápio das iguarias  baianas. Expressando a influência notória da culinária africana na culinária dos brasileiros,  o arroz-de-hauçá  representa, com muito sabor, essa proximidade gastronômica na Bahia.

O arroz-de-hauçá é uma opção de degustação de vários baianos, inclusive do ilustre escritor Jorge Amado, demonstrando, mais uma vez, que a cozinha negra fez valer os seus temperos, condimentos e a sua maneira de cozinhar.

O prato consiste em um anel de arroz banhado no leite de côco, acrescido a carne seca acebolada e  coberto com molho de camarão seco defumado – tudo regado com um pouco de azeite de oliva e dendê. Todos esses ingredientes são colocados bem arrumados em um recipiente redondo e normalmente servidos em tigelas de barro quando ainda está quente.

Para entender: A carne seca que compõe o arroz-de-hauçá era, naquela época, um alimento direcionado aos mais pobres, por isso era amplamente utilizada na culinária de trabalhadores, como os peões de fazenda de cacau. Além disso, compõe a “dieta” do Orixá Omolu.

Por Daniela Oliveira

Read Full Post »

Os famosos alguidares (como também são conhecidos os acarajés) definitivamente fazem parte da dieta da autora deste post! / Foto: Andre Schirm

Do vínculo com a religiosidade à comercialização industrial, os famosos bolinhos de feijão africanos ganharam corpo na Bahia e foram além de oferendas às divindades: hoje, os acarajés são integrantes oficiais da dieta alimentar de uma deusa do culto afro-brasileiro, da população baiana e de milhares de adoradores da iguaria espalhados pelo mundo.

Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa*, o quitute genuinamente africano e baiano por graça tem presença em terras brasileiras marcada há mais de duzentos anos, quando além de vendido a pregão nas ruas da Bahia era ofertado ao orixá Iansã ou Oiá, no culto sagrado do Candomblé.

No princípio, o pequeno bolinho feito de maneira simples servia para agradecer pedidos mas, com o final da escravatura, deu um verdadeiro salto rumo às ruas baianas para, através da sua comercialização, garantir o espaço social de famílias, e  principalmente, mulheres afro-descendentes.

De lá para cá, o bolinho de feijão fradinho moído, frito no azeite de dendê, se tornou o maior representante da culinária baiana, é comentado em diferentes partes do globo e entoado por diferentes vozes. E já afirmava o poeta e compositor Dorival Caymmi, em A Preta do Acarajé:

“… Todo mundo gosta de acarajé, o trabalho que dá pra fazer é que é…”

Mas como diria o sociólogo Roque Pinto**, já não é tão complicado assim. Na atualidade, as “baianas de acarajé” não precisam vagar à noite em busca de compradores de seus quitutes com tabuleiros erguidos a cabeça – como era de costume. É real dizer que ao invés de irem até os clientes, as baianas de acarajé possuem hoje uma verdadeira legião de fãs, que as procuram em pontos fixos de todo o Recôncavo Baiano.

Sem entoar cânticos, as contemporâneas baianas de acarajé ganharam tabuleiros padronizados, enormes tendas, enormes filas e altos preços para valorizar a iguaria que ofertam.

“Vem benzê-ê-em, tá quentinho. Ô acarajé ecó olalai ó

Depois de divulgado, popularizado e difundido, o acarajé caminha para a profissionalização. Mas como profissionalizar um quitute?  Simples. Com a criação de uma Associação de Baiana de Acarajé, apoio governamental e um selo de qualidade (isso mesmo, quase um Inmetro do dendê), baianas de acarajé conseguem consolidar uma verdadeira estrutura de produção dos bolinhos, ou seja, nada de ralar o feijão em pedra e amassar na mão, como nos seus primórdios de criação.

Incrível, não? Nada devagar, o hambúrguer de baiano ganhou as cadeias de Fast Food, ou comida rápida, e cursos já são oferecidos para quem quiser comercializá-lo, com matérias como atendimento ao cliente, manipulação de alimentos e finanças.

Hoje, quem estiver interessado em apenas saborear não precisa mais esperar uma baiana passar entoando cantigas ou mesmo se dirigir a uma das inúmeras tendas espalhadas pela cidade. Ao entrar em um mercado, é possível comprar a mistura pronta, que ao adicionar água e ser despejada em forma de bolinho em uma fritadeira com dendê, se transforma – como que em um passe de mágica não tão especial – no acarajé.

*Etnocenologia e etnoculinária do Acarajé; Vilvaldo da Costa Lima
**Cocina Bahiana; Roque Pinto da Silva Santos


Por Priscila Letieres

Read Full Post »