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Archive for janeiro \10\UTC 2010

Ela juuura que é a Cor da minha cidade! / Foto: Divulgação- O Fuxico

Atenção Fãs de Daniela Mercury: Leiam com ponderação

Acho que todo soteropolitano tem um CD de Daniela Mercury. Quando tinha 7 ou 8 anos ganhei o meu, lembro como se fosse ontem …

Brincava de fazer lama em uma chuva gostosa, daquelas que só existe pra menino pequeno, sabe? Estava no quintal da casa da minha avó quando recebi do meu pai um dos meus presentes favoritos: um CD (sim, eu sou da geração do CD).

Fui correndo colocar Feijão com Arroz no som e folhear o encarte – o que é um prazer e tanto pra mim.

Não posso negar que aquele treco ficou dentro do meu aparelho por um bom tempo – Feijão de Corda era especialmente empolgante para mim, até hoje fico sem saber por que (vide refrão), mas creio que tenha sido por conta do batuque ou da vaga semelhança com algumas cantigas de roda.

Alguns anos depois (mais do que a quantidade de anos que a cantora soteropolitana ficou sem gravar álbuns em estúdio) fui tomando um desgosto por todo o conjunto da obra: que o canto da cidade era dela e a cor da cidade ERA ela, menos mal – tem todo um sentido metafórico, figurativo, viajantivo – AGORA, o silêncio da noite e até a porra do sol da manhã TAMBÉM?!

Quer dizer, não bastava ela expressar liricamente que ela era a representatividade física e vocal da energia do baiano?

Oxente, rapaz, ela né fraca não, viu?

Pegou logo foi tudo da minha cidade e patenteou (igual aos japoneses com o açaí brasileiro – tirando o fato dela não ficar com a boca preta depois que come o canto da cidade).

Depois que eu me toquei desses detalhes… Gente, toda vez que ouvia a palavra Daniela, ou Rainha do Axé, ou Mercury, ou Dani ou D… já ia me dando umas agonias.

Vixi, mas que aquela mulher me deixava nervosa, deixava (mais tarde eu fui descobrir que eu só não gostava dela por dois motivos: por que minha implicância não tem dono e porque ela resolveu se chegar foi em Daniela Mercury).

De lá pra cá ficava pensando como ela conseguia ter em mãos a “ Fórmula Mágica da Efusividade” – até na festa, já pouco efusiva, do Carnaval.

Me acompanhe…

Fórmula de Báskara do Exagero

a = Qual o instrumento que tem ATÉ calda?

b = Atrás do QUE só não vai quem já MORREU?

c = Qual época do ano Salvador fica MAIS colorida – lê-se suja?

O resultado veio estampado na manchete de trinta mil jornais por aí:

a + b + c =

“Daniela traz piano de calda para cima do Trio Elétrico no
Carnaval de Salvador”

– Porra véi, aí é dose! – Pensei com a mesma intensidade que as palavras fugiram da boca naquele momento de espanto.

Espanto esse que permaneceu estampado em minha cara por muito tempo toda vez que o assunto era Daniela – a essa altura eu não queria nem saber se tinha instrumento tal na música dela, se fulaninho musicista mundial era convidado ou se ela tava namorando com uma mulher de Nova York e o cabelo dela tinha sido queimado em um salão de beleza…

Até hoje.

Para quem não sabe, hoje é o domingo que tá rolando uma festa no play do meu prédio que não me deixa dormir e o dia de um programa especialmente dedicado a Daniela, em comemoração aos seus 20 mil anos de carreira (tirando os 80 mil de carreira internacional).

Parei pra assistir – eu nem gosto de me provocar, imagina.

Palavra vai, palavra vem, ela me pareceu diferente.

– Rapaz, essa mulher não dorme há 12 dias e tá morgada ou ela tá calma mesmo?- Ponderei.

Serenidade – Acho que a palavra que melhor expressou o que eu enxerguei foi essa.

Ela estava tão diferente aos meus olhos, parecia que estava falando comigo da mesma altura – tirou o salto da altura do Elevador Lacerda que para mim ela parecia usar. Ali, eu quis ouvir o que ela tinha pra falar, pra mostrar e pra cantar.

Reparei na emoção dela, nos músicos dela (pelos quais eu nutria uma pena terrível até segundos atrás), nas palavras dela e até nas cinco capas diferentes que ela tinha feito para um único CD (ta, tá, também achei que já deu de chatice minha, mas como disse: a implicância não tem dono, porra, e agora ela era das cinco capas do CD – menos mal).

Tudo me parecia estranhamente familiar, e foi aí que ela começou a cantar uma música que tinha composto em homenagem aos pais, irmãos e sobrinhos.

Isso pode até não significar muita coisa, mas devo admitir:

Daniela teve, a partir do primeiro toque naquelas congas (que me bateram como um atabaque), a minha admiração mais sincera.

Ao cantar Cinco Meninos, Daniela Mercury parecia uma verdadeira estrela que “traz o sol”: sensível, mulher, afetiva, calorosa e poderosa, por levar à rua, como quem vendia quitutes de porta em porta, um amor puro e destilado.

Foi muito emocionada que corri para pegar esta folha de papel e uma caneta (sim, sou da geração do CD e do google, mas tenho minhas preferências) e escrevi a primeira palavra que pulsou em meu coração:

Serenidade.

Além da compulsiva – e habitual – vontade de escrever, me bateu uma vontade de tascar um abraço naquela mulher, como prova do meu mais legítimo agradecimento.

Agradecimento por me fazer lembrar da vida na casa da minha avó, na Boca do Rio, das festas de natal, da minha primeira paixão, dos meus tios nadando crawl em uma piscina plástica de 1000 lt, dos meus momentos de solitude e reflexão, dos instantes em que meu estômago parece ter dado um nó e a garganta fica seca, de quando eu me escondia e de quando eu queria me aproximar…

Basicamente, por me fazer lembrar das minhas mais profundas emoções.

Palmas dedicadas a ela, a sua família, a sua história e a sua belíssima e humilde interpretação de como poderia ser a autêntica e visceral energia do baiano – se ela conseguisse ficar presa a uma pessoa, a um canto, a uma cor…

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