Feeds:
Posts
Comentários

Archive for novembro \26\UTC 2009

Os famosos alguidares (como também são conhecidos os acarajés) definitivamente fazem parte da dieta da autora deste post! / Foto: Andre Schirm

Do vínculo com a religiosidade à comercialização industrial, os famosos bolinhos de feijão africanos ganharam corpo na Bahia e foram além de oferendas às divindades: hoje, os acarajés são integrantes oficiais da dieta alimentar de uma deusa do culto afro-brasileiro, da população baiana e de milhares de adoradores da iguaria espalhados pelo mundo.

Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa*, o quitute genuinamente africano e baiano por graça tem presença em terras brasileiras marcada há mais de duzentos anos, quando além de vendido a pregão nas ruas da Bahia era ofertado ao orixá Iansã ou Oiá, no culto sagrado do Candomblé.

No princípio, o pequeno bolinho feito de maneira simples servia para agradecer pedidos mas, com o final da escravatura, deu um verdadeiro salto rumo às ruas baianas para, através da sua comercialização, garantir o espaço social de famílias, e  principalmente, mulheres afro-descendentes.

De lá para cá, o bolinho de feijão fradinho moído, frito no azeite de dendê, se tornou o maior representante da culinária baiana, é comentado em diferentes partes do globo e entoado por diferentes vozes. E já afirmava o poeta e compositor Dorival Caymmi, em A Preta do Acarajé:

“… Todo mundo gosta de acarajé, o trabalho que dá pra fazer é que é…”

Mas como diria o sociólogo Roque Pinto**, já não é tão complicado assim. Na atualidade, as “baianas de acarajé” não precisam vagar à noite em busca de compradores de seus quitutes com tabuleiros erguidos a cabeça – como era de costume. É real dizer que ao invés de irem até os clientes, as baianas de acarajé possuem hoje uma verdadeira legião de fãs, que as procuram em pontos fixos de todo o Recôncavo Baiano.

Sem entoar cânticos, as contemporâneas baianas de acarajé ganharam tabuleiros padronizados, enormes tendas, enormes filas e altos preços para valorizar a iguaria que ofertam.

“Vem benzê-ê-em, tá quentinho. Ô acarajé ecó olalai ó

Depois de divulgado, popularizado e difundido, o acarajé caminha para a profissionalização. Mas como profissionalizar um quitute?  Simples. Com a criação de uma Associação de Baiana de Acarajé, apoio governamental e um selo de qualidade (isso mesmo, quase um Inmetro do dendê), baianas de acarajé conseguem consolidar uma verdadeira estrutura de produção dos bolinhos, ou seja, nada de ralar o feijão em pedra e amassar na mão, como nos seus primórdios de criação.

Incrível, não? Nada devagar, o hambúrguer de baiano ganhou as cadeias de Fast Food, ou comida rápida, e cursos já são oferecidos para quem quiser comercializá-lo, com matérias como atendimento ao cliente, manipulação de alimentos e finanças.

Hoje, quem estiver interessado em apenas saborear não precisa mais esperar uma baiana passar entoando cantigas ou mesmo se dirigir a uma das inúmeras tendas espalhadas pela cidade. Ao entrar em um mercado, é possível comprar a mistura pronta, que ao adicionar água e ser despejada em forma de bolinho em uma fritadeira com dendê, se transforma – como que em um passe de mágica não tão especial – no acarajé.

*Etnocenologia e etnoculinária do Acarajé; Vilvaldo da Costa Lima
**Cocina Bahiana; Roque Pinto da Silva Santos


Por Priscila Letieres

Read Full Post »